domingo, 23 de julho de 2017

Declaração de amor


            Acordei ás 6h em pleno domingo. Abri os olhos com certa dificuldade, e por mais que o tempo parecesse perfeito para ficar deitada embaixo das cobertas, eu precisava levantar-me. Não por fome ou algo similar, mas porque eu tinha um compromisso com alguém muito especial. Os raios de sol adentravam pelos desenhos existentes no vidro da janela, e em minha cama formavam um pequeno e singelo arco íris. Depois de me sentar à cama, e me espreguiçar por um longo período, foi que eu notei a sua presença. Era perceptível o seu duradouro e curioso olhar sobre mim, e de alguma forma, isso não me deixava desconfortável, muito pelo contrário. A sua constante assiduidade me fazia sentir uma inexplicável segurança. Você sempre esteve ali, mesmo que eu não conseguisse perceber. Seus olhos pareciam percorrer meu corpo, como que assegurando o meu bem-estar, verificando todos os detalhes por você já conhecidos, mas que você fazia questão de relembrar. Você sabe tudo ao meu respeito, me conhece no íntimo, no secreto. Dos meus pés tamanho 39, às pontas irregulares dos meus cachos; Das cicatrizes resultantes de minhas “aventuras” infantis, à manchinha presente no meu queixo. Você é Aquele que me assistiu nos meus piores e melhores dias, e ainda assim não fugiu. 
Eu sorri e então tivemos aquela longa e prazerosa conversa. Eu te pedia desculpas por todas as vezes que mantive afastada, pelas vezes nas quais não te procurei, pelos meus constantes deslizes e falhas. Admito que não foi nada fácil. Esvaziar-me de mim mesma, do meu orgulho. Baixar minha guarda, meu escudo de autoproteção e permitir que você enxergasse o que realmente havia em meu coração. E eu sabia que era melhor assim. Do que adiantaria tentar te esconder algo? Isso só colocaria “em cheque” o nosso relacionamento. Depois, eu te agradeci por todos os momentos bons e por todos os puxões de orelha. Eu te contava acerca dos meus planos, dos meus projetos e você escutava, com aquela paciência e atenção que só você conseguia me proporcionar. Quanto mais eu falava, mais vontade eu sentia de delongar o diálogo. Só que ainda maior do que o meu desejo de falar, era o de te ouvir, então me permiti permanecer em silencio. Diferentemente da minha fala atropelada e ansiosa, a sua voz era calma e serena. Você transmitia uma tranquilidade tão gostosa, que a minha vontade era de ali ficar e te ouvir. Você aconselhava-me, me lembrava de todas as experiências que compartilhamos e isso me transmitia uma paz tão grande. Algo que eu não conseguia colocar em palavras, mas que meu coração clamava por mais.
Após isso, me arrumei e vesti a minha roupa mais bonita. Você merecia o melhor de mim, o que eu tinha de mais excelente para oferecer-te. Ao chegar à minha cozinha, me deparei contigo sorrindo a me esperar. Não pude evitar sorrir ao presenciar essa cena. Tomei meu lugar ao seu lado e te agradeci pela maravilhosa refeição que eu iria saborear. Enquanto comia, eu pensava nesses meses que estivemos juntos. Confesso que o início foi bem complicado. Eu não te conhecia, não compreendia o que sentia por mim e não queria admitir que estivesse errada, que precisava mudar para que o nosso relacionamento obtivesse sucesso. Eu corria para longe, tentava fugir do seu olhar, mas a maior das verdades era que eu queria fugir de mim mesma. Eu não me amava, por isso, não conseguia amar ninguém, nem mesmo você. Mas com toda a paciência do mundo, você me pegava pelas mãos e me trazia de volta. Isso não aconteceu uma ou duas vezes, foram dezenas. Mas você nunca desistiu de mim, nunca pensou em me abandonar. Durante dez meses você foi e é meu melhor amigo, meu companheiro, meu maior amor. 
É incrível pensar que eu levei 18 anos para notar que o amor e a aceitação que eu tanto buscava nas pessoas, já existiam em você. Após o nosso café da manhã, saímos juntos para darmos uma volta pela vizinhança. Ao dobrar a esquina, eu não pude evitar sentir os olhares das pessoas sobre nós dois. A mudança em mim era perceptível. Quem me conheceu antes, aquela garota triste e imatura, não consegue acreditar na mulher segura e confiante que me tornei. Muitos me perguntaram quem ou o que levou a essa transformação, e eu só conseguia pronunciar o seu nome. Há um trecho de uma música que diz: “E até quem me vê lendo jornal, na fila do pão sabe que eu te encontrei”. E segurando as suas mãos, marcadas pelo sacrifício que você fez por todos nós, tornando se o inocente que se fez réu, eu compreendo que a alegria que eu levei tanto tempo para encontrar, só é possível com você. Jesus...

Neves, G. L .L.

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